Colaboração no Setor Público

Por Lincon Shigaki, Desenvolvedor de soluções na WeGov  

Augusto de Franco, trabalhou com desenvolvimento local por muitos anos e teve um notório sucesso em fortalecer comunidades. Sua maior inquietação era descobrir o por quê determinadas comunidades são vivas e exercem um protagonismo coletivo em detrimento de outras. Por vezes, as comunidades estudadas eram semelhantes em recursos disponíveis, origens étnicas e no ambiente geográfico.

No processo de induzir o desenvolvimento humano nas localidades, percebeu que certas comunidades tinham uma predisposição para ter um espírito de associação e subsequente capacidade de auto organização para resolver problemas locais.

Augusto afirma que as interações sociais eram capazes de produzir uma riqueza/energia, mesmo que invisível aos olhos. Essa riqueza foi chamada de capital social e é o fator sistêmico de desenvolvimento, por revelar comportamentos coletivos que convergem em uma identidade distinta.

O poder do “invisível”

O tema capital social cada vez mais está sendo aplicada no ambiente organizacional. A lógica é a mesma – os laços invisíveis e as relações de confiança que uma instituição constrói, distingue a sua capacidade de entregar valor aos stakeholders.

A WeGov, observando o setor público há anos, confronta a usual “receita” de solução para os desafios do governo. Muitas vezes, os problemas e a esperança estão associados à individualidade, onde um “culpado” ou um “herói” se torna alvo da simplificação do mérito.

Na prática, o desempenho individual dos agentes públicos são o resultado do próprio ambiente social. Mesmo de forma não intencional, esse ambiente influencia a capacidade de conceber, propor e implementar soluções inovadoras.

Existe uma “força invisível” que reflete um histórico de comportamentos e crenças compartilhadas do grupo. Essa “força” trata de repelir comportamentos estranhos ao grupo. Por exemplo, mesmo um gestor especialmente propositivo terá dificuldade de implementar ideias em um ambiente hostil.

O desafio de fortalecer as relações

É comum associarmos o termo “colaboração” com amistosidade e pacificidade nos relacionamentos. Para a WeGov, o significado se distancia dessa imagem de passividade.

A colaboração é o nível máximo de alinhamento entre duas ou mais instâncias (individual ou institucional). Ela acontece quando há congruência em dois planos, onde Maquiavel os chama de (1) meios e (2) fins.

  • Divergência de meios e divergência de fins – Conflito
  • Congruência de meios e divergência de fins – Coalizão
  • Divergência de meios e congruência de fins – Competição
  • Congruência de meios e congruência de fins – Colaboração

A colaboração exige mediação de conflito, e estresse nos diálogos de alinhamento entre fins e meios.

Já que colaborar dá mais trabalho do que executar individualmente, dominar a competência da colaboração reside em ser objetivo na congruência de interesses e em encontrar complementaridade das ações divergentes.

O motor da inovação no setor público

Augusto Franco atribua a capacidade de uma comunidade prosperar ao capital social. Entendo que a chave para construir essa “riqueza” nas instituições públicas reside em dominar a competência da colaboração.

Na ausência de colaboração, evidencia-se a “departamentalização” dos esforços, onde problemas complexos são abordados de forma unidimensional. A colaboração, trará resultados unicamente possíveis quando agentes públicos desenvolverem a capacidade de colaborar no próprio departamento, entre setores, poderes e esferas e com o setor privado e sociedade civil.

Acredito que melhores serviços e políticas públicas são um importante motor para uma sociedade mais justa. Não obstante, a mudança necessária para ampliar esse impacto positivo, a priori, está em desenvolver uma tecnologia social. Esta, atua como uma força invisível, onde as pessoas conseguem aproveitar múltiplas competências e desenvolver uma abordagem sistêmica de resolução de problemas.

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