Com quem eu trabalho?

A porta do elevador se abre. Entra uma moça com quem Joana sempre almoça, mas nunca soube o seu nome. Um silêncio toma conta do pequeno espaço. Até que Joana resolve quebrar o gelo:

— Você é do almoxarifado, né?
— Sim, sim. Suzana, prazer. E você? – responde a moça, com outra pergunta.
— Joana, do comercial. Nós repartimos a mesa do almoço alguns dias. Mas, não lhe conhecia. Prazer!

Joana sai do elevador e fica pensativa: “nossa, conheço tantas pessoas diferentes no meu dia, como eu não conheço as pessoas com quem trabalho?”

A realidade de Joana, infelizmente, é muito mais comum nas empresas do que se pensa. Principalmente, naquelas em que o número de funcionários é grande. Mas, também nas médias e até pequenas empresas é comum um profissional não conhecer um colega de trabalho.

Você já parou para pensar por que isso ocorre?

Vou arriscar alguns motivos. O primeiro deles é que as empresas foram criadas, algumas décadas atrás, com um intuito de não promover mesmo a integração entre os departamentos. Cada um devia cuidar da sua equipe (ou do seu quadrado, como preferir), tornando a integração um desafio para os RHs da atualidade. Para prejudicar ainda mais essa relação tênue entre departamentos, nos anos 80 a competitividade se tornou algo tão “normal” nas corporações que até foi considerada “the new sexy”. Ser um profissional individualista (um alpinista profissional), sem compartilhar suas experiências se destacando apenas para a chefia, intensificou esse processo de “cada um com seus problemas.”

O fato é que as companhias começaram as identificar que o “cada um com seus problemas” trazia problemas ainda maiores para as empresas, como, por exemplo, a perda de dinheiro pela falta de comunicação entre departamentos. O financeiro não sabia bem por que era preciso investir dinheiro no departamento de vendas, que não sabia direito quais as novidades lançadas pelo departamento de marketing e por aí vai.

É claro que, no século XXI, o cenário já não é mais o mesmo. A palavra de ordem é “compartilhar”. Dentro e fora das empresas (nas mídias sociais, por exemplo), o tempo todo, os profissionais estão compartilhando ideias, experiências, vitórias. E para compartilhar, claro, é preciso se comunicar.

Mas, não pense que uma revolução comunicativa aconteceu nas corporações nos últimos 20 anos. Ainda falta muito para que a comunicação flua entre departamentos. Para algumas empresas, é um desafio fazer a integração entre os funcionários. Elas investem em vídeos institucionais, outras em festas coletivas, cafés, reuniões informais. Cada um tenta uma tática para a sua comunicação interna.

No entanto, enquanto houver uma cultura bairrista entre os departamentos, sem uma noção de que uma empresa funciona com o trabalho suado de todos e que, principalmente, a competitividade é uma “tia velha amarga”, nenhum esforço do setor de comunicação dentro das empresas valerá a pena. Em outras palavras, é preciso mudar o ser humano e o olhar que se tem sobre o outro.

É hora de olhar com honestidade e mais dignidade as pessoas com quem se trabalha. E tentar entender seus processos, seu trabalho, ritmo, comunicação, com uma conexão muito mais tranquila e sem julgamentos. Você não conhece as pessoas que são terceirizadas? Só porque elas são terceirizadas? Tente!

Sempre haverá a desculpa da falta de tempo. Então, lhe digo: “apele para sua curiosidade”! Quantas Joanas e Suzanas existem na sua empresa e que podem, se não contribuir com seu trabalho, mas com um dia mais gostoso de serviço?

Talvez seja hora de você se perguntar: com quem eu trabalho?

p.s: é evidente que existem empresas que conseguem fazer a integração entre os departamentos. Se esse é o seu caso, por favor, conte-nos o seu exemplo (nos comentários) para que mais empresas possam ajudar a agregar seus colaboradores.

Alloyse

Alloyse Boberg

Alloyse Boberg é consultora em comunicação e foi jornalista durante quase 15 anos. Atuou como Editora Chefe e Executiva da RICTV, afiliada da Rede Record no Paraná. Mestre em Linguística, realiza treinamentos com foco no aprimoramento da comunicação pessoal e profissional, um dos temas que abordou na sua coluna da Rádio Bandnews e em artigos veiculados em meios impressos e eletrônicos de todo o país. Diretora da DNA Comunicativo e criadora do blog A Comunicação como ferramenta.