Líder vs chefe: a discussão é realmente esta?

É comum nos deparamos com fórmulas, textos e comparativos sobre as diferenças entre líder e chefia. Formou-se a ideia do que é bom ou ruim. No entanto, talvez, esteja na hora de amadurecer a discussão.

Tradicionalmente, a liderança é ligada a uma gestão descentralizada; ágil que dá vazão as decisões dos atores envolvidos na ação. De outro lado, há o chefe, que manda e alguém obedece. Pessoalmente, acredito que a segunda versão nunca funcionou. Mas e a primeira funciona?

Segundo a literatura sim, mas na prática há um hiato. Para Matheus Mikio Tanaka, diretor presidente da CONAQ Projetos e Consultoria, ser um grande líder tornou-se algo banal, uma espécie de modismo. Ele detalha que muitas pessoas buscam ser líderes sem estar comprometidos com a constância de propósito. Isto é: “mesmo não tendo perfil acabam aproveitando-se dessa característica para satisfazer seus egos”, salienta Tanaka.

Para ele, esta atitude emerge de uma certa arrogância aliada ao termo, tornando a liderança questionável e gerando ruídos de comunicação, produtividade e desgastes de ambos os lados. Atingindo seu ápice no que Tanaka comenta ser o maior erro de um líder: desconhecer sua equipe.

A opinião do profissional é chancelada pela pesquisa Tendências Mundiais para o Capital Humano da Deloitte. De acordo com o estudo, apenas 13% dos colaboradores estão realmente engajados em suas funções. O dado não só coloca em xeque o formato de liderança pregada no mercado, como demonstra uma grande insatisfação dos colaboradores com as empresas de modo geral.

Para reverter este quadro é necessário alterar drasticamente as estratégias de liderança e atuar em consonância às necessidades dos colaboradores. Tamara Erickson, especialista em liderar equipes de trabalho com múltiplas gerações, explica que o primeiro passo a ser tomado é respeitar as diferentes peculiaridades de cada indivíduo e não presumir que todo mundo quer o que você quer.

Tanaka corrobora à opinião da especialista e comenta ser papel do líder por meio de atitudes demonstrar o que espera de seus liderados. “No Movimento Empresa Júnior aprendemos que o líder deve ser ético, comprometido e principalmente realizador. Afinal, todos os grandes times precisam de um líder que dê o exemplo e, realmente, vá lá e faça. Esta é a atitude esperada de um líder”, destaca Tanaka.

Mudanças de hábito

Tanaka salienta ser dever do líder transparecer no seu dia-a-dia todos os valores culturais da empresa e agir como exemplo a ser seguido. Ouvir e estar receptivo a críticas e novas abordagens que possam tirá-lo da zona de conforto.

O problema é que esta zona de conforto parece ir muito além da simples iniciativa de um líder sensato. Para o sociólogo e autor italiano Domenico De Masi, a promessa da revolução digital ainda não aconteceu. E, as empresas atuam com a mentalidade industrial de 150 anos atrás. Ou seja, os líderes são treinados para a era industrial e não a digital.

Pela visão do autor de “Ócio criativo”, Henry Ford encontrou à época da invenção do automóvel uma maneira completamente diferente de organizar a fábrica e produzir automóveis. Contudo, aponta ele, desde então não houve outra revolução organizacional.

“Eu acreditava que as empresas digitais trariam renovação, um novo modo de organizar empresas e produtos digitais”, comenta De Masi, em entrevista a Revista IT Fórum. Mas, completa ele, “o que vejo são produtos novos com organização antiga. O Google e a Apple são organizados como a Ford, com mais cores, mas é a mesma coisa”.

Ao sociólogo, a solução a este paradigma é uma revisão ao modelo proposto de trabalho. Ele diz não fazer sentido em uma sociedade, onde 70% do trabalho é intelectual, trabalhar-se tantas horas e com a divisão dia de trabalho e dia de descanso.

Pela visão de De Masi, as horas que perdemos nos escritórios e em intermináveis reuniões estão podando as novas possibilidades de criação e inovação nas empresas digitais, de forma a frustar os jovens, que acreditam em uma sociedade organizada sem horários, inovadora e onde a sede é a internet, e ao chegar no mercado se deparam com um modelo engessado, burocrático e com rígida disciplina industrial.

 

França

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Jornalista, especialista em cinema e mestrando em Literatura, nas horas vagas lembra da tempestade que destruiu Macondo e combate o crime em Gotham City.